Há uma pergunta aparentemente simples que, quando feita do jeito certo, desorganiza tudo por dentro:
Quem é você?
Quase sempre, a resposta vem automática. “Sou mãe.” “Sou pai.” “Sou empresária.” “Sou marido.” “Sou dona de casa.” “Sou profissional disso ou daquilo.” Não está errado. Mas também não é isso.
Porque essas respostas dizem o que fazemos, o que temos, o papel que exercemos. Não dizem quem somos.
E é nesse ponto que o silêncio aparece.
Quem eu sou sem os títulos?
Sem o crachá. Sem o estado civil. Sem as responsabilidades que ocupam a agenda. Sem as expectativas que os outros colocaram sobre nós.
Quando a pergunta vira:
Quem eu sou sem os títulos, sem as relações, sem as obrigações?
O chão dá uma leve tremida.
Homens e mulheres travam. Uns porque aprenderam que sentir é fraqueza. Outras porque aprenderam que existir sem servir é egoísmo.
No fim, o efeito é o mesmo: ninguém ensinou a gente a se reconhecer para além da função.
A confusão entre ser e fazer
Vivemos numa cultura que nos treina para funcionar. Produzir. Resolver. Sustentar. Dar conta. Ser forte.
Homens são empurrados para a performance. Mulheres, para a doação.
Ambos acabam confundindo valor com utilidade.
Quando não estão sendo úteis, sentem culpa. Quando param, sentem vazio. Quando tentam se definir, só encontram tarefas.
O desconforto não é falha — é sinal
Não saber responder quem você é não significa que você não tenha identidade. Significa apenas que você passou muito tempo olhando para fora.
Talvez essa pergunta não exista para ser respondida de imediato. Talvez ela exista para nos lembrar que ainda estamos nos devendo esse encontro.
Voltar para si não é abandonar o mundo. É parar de se abandonar nele.
Um convite, não uma cobrança
Não é sobre largar tudo. Nem sobre mudar de vida da noite para o dia.
É sobre criar pequenos espaços de escuta. Silenciosos. Honestos. Sem performance.
Ali, aos poucos, algo começa a aparecer. Não um título. Não um papel. Mas um jeito único de existir.
Para refletir hoje
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Quem eu sou quando ninguém espera nada de mim?
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O que me faz sentir vivo(a), não apenas produtivo(a)?
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Se eu não precisasse provar nada, como eu estaria agora?

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